Autismo quando acabará o preconceito?
Eu sou pai de criança com o diagnóstico de autismo e, como muitos pais de crianças portadoras de deficiência físico-motoras, déficit de atenção, hiperativos, distúrbios de comportamento entre outras, sofro com a dificuldade de aceitação do meu filho nas Instituições de Ensino, clubes recreativos, academias e espaços públicos. O que estou escrevendo aqui não é um pedido de piedade, mas um desabafo por ver que em tantos lugares não se cumpre o direito que meu filho tem, assim como outras crianças portadoras de alguma deficiência, têm de usufruir de um ensino de qualidade, da pratica esportiva, de interação social, e demais necessidades que estas crianças, adolescentes, adultos e idosos têm para terem uma vida digna.
No último dia 06 de março de 2012, eu fui convidado a retirar meu filho de 05 anos da natação da AABB, pelo professor Manoel, com a alegação de que pelo fato de meu filho ser portador de autismo, o clube não teria condições de trabalhar com ele. Ele já estava matriculado de desde dezembro de 2011, nunca me ausentei da piscina, sempre o acompanhando, quando o matriculamos, eu e minha esposa, não visamos o aprender a nadar, mas o trabalho de interação com outras crianças, que é de extrema necessidade para o seu desenvolvimento. De fato houve um episódio em janeiro que ele evacuou na piscina, e o fato se repetiu no dia 06/03/12, mas eu nestes dois momentos acompanhei o processo de higienização da piscina, localizando o zelador para limpá-la. Na primeira ocorrência, o professor Manoel me abordou de forma abrupta me questionando que eu havia matriculado meu filho e omitido o diagnóstico de autismo, fato este que não omiti tanto no momento da matrícula quanto na avaliação médica dele no clube. Ainda acrescentando que se ele tivesse tomado conhecimento o não teria aceitado. No segundo fato, fiz o mesmo procedimento, e o professor Manoel, me abordou novamente já afirmado que “já tinha dado uma chance, e ele fez de ‘novo’, e desse jeito o que ele iria falar para os outros pais?”. Fato que no dia do ocorrido, havia alguns pais e nenhum falou sobre a situação nem retiraram seus filhos da piscina por causa do fato.
Esperei uma semana para ir à AABB para solicitar o cancelamento da matrícula do meu filho, tempo este, não por omissão, mas para poder acalmar meus sentimentos frente à situação. Fui à presidência do clube, no dia 22/03/12, solicitar o cancelamento da matrícula, mediante a declaração por escrito, por parte do clube, do motivo da solicitação do cancelamento da matrícula de meu filho. O presidente veio com o discurso me informando que esse não era o pensamento do clube e condenando tal postura, informou-me que existem leis de inclusão social e que tal atitude não poderia ter existido (mas existiu) que iria se reunir com a equipe de atividades físicas do clube para estudarem uma metodologia de trabalho com ele, pois o clube era “um centro integrador”, e por ser isso, não poderia agir desta maneira. O prazo dado pelo presidente da AABB foi para me contactar sobre a situação era até o dia 27/03 e hoje já são 31/03 e até o momento, nada.
Este episódio me fez recordar um fato que aconteceu há dois anos, também com ele, meu filho, quando também fomos forçados a tirá-lo do Instituto Dom Barreto, pela mesma alegação: O DDIAGNÓSTICO DE AUTISMO. Como não pudemos ir à reunião que o colégio havia marcado, resolvemos ir antes do inÍcio das aulas, para a nossa decepção. Quando iniciamos a conversa com a coordenadora do ensino infantil, ela se demonstrou surpresa pois não sabia que haveria uma criança autista em sua sala de Infantil I, e mais uma vez o questionamento “como nós omitimos a informação do diagnóstico de autismo de nosso filho”. Ela pegou uma ficha que preenchemos para o processo de pré-seleção de matrícula e lá, minha esposa havia informado que nosso filho tinha TIDE (Transtorno Invasivo do Desenvolminento), pois até então não tinha diagnóstico fechado de autismo. Recebemos a carta de aceite, que o colégio estaria “feliz” em recebê-lo. Fiz , então, a matricula, e uma das exigências era o atestado de saúde. Documento este que solicitamos da neuropediatra que o acompanha de o início. E este documento já informava o diagnóstico de autismo. E, para a nossa surpresa, o colégio não havia lido os atestados médicos da turma que nosso filho seria inserido. Interessante, e nós é que fomos omissos. Mas o diálogo não terminou por ai, o colégio nos informou que se quiséssemos nosso filho no colégio teríamos que contratar um Acompanhante Terapêutico, porque ele não poderia ficar desacompanhado, e como nosso filho ainda não fala, ele, com certeza, seria excluído pelas as outras crianças da sala. Como um colégio pode aceitar um fato como esse? No dia seguinte à reunião, fui solicitar o cancelamento da matricula, que foi prontamente providenciada sem nenhum questionamento, somente me levaram a tesouraria e me devolveram o dinheiro. Acho que foi um alívio para eles.
O que me deixa indignado é o fato termos leis garantem os direitos de nossos filhos, mas ainda há instituições de ensino, academias e clubes que ainda se negam a cumpri-las.
Eu sei que a vida de meu filho está em uma linha tênue onde ele pode ter 50% de chance de ser no futuro um adulto plenamente funcional ou ter 50% de chance de ser eternamente dependente de outros para acompanhá-lo em sua vida diária. Mas o que mais me fere é ver minha esposa chorar pelos cantos quando sentimos o preconceito e a discriminação que meu filho sofre, e que ele inocentemente não percebe.
Acho que já ficamos calados demais, devemos fazer o cumprimento da lei, não podemos mais nos esconder, nos isolar, meu filho não pediu para ser autista, mas por causa disso não devemos ser excluídos da sociedade, nem a sociedade deve nos julgar pela situação. Nós só queremos que seus direitos sejam cumpridos.
Inácio de Loiola de Oliveira Campos Júnior